Corrupção na política: quem corrompeu quem?
![]() |
| Magali Lima - Pedagoga e Especialista em Educação |
Falar de corrupção na política tornou-se quase um exercício de rotina. Escândalo após escândalo, promessa após promessa, a população assiste à perda de credibilidade das instituições e repete a mesma frase: “A política está corrompida”. Mas será que essa afirmação, sozinha, explica o problema? Talvez seja necessário fazer uma pergunta mais incômoda: como chegamos até aqui e quem, de fato, sustenta esse sistema?
É evidente que o político que desvia dinheiro público, compra votos, troca favores por apoio ou utiliza o cargo para benefício próprio deve ser responsabilizado. Não existe justificativa para a corrupção. Quem recebe um mandato recebe, também, uma responsabilidade: administrar o que pertence a todos. O dinheiro público não é propriedade do governante, assim como o mandato não é um patrimônio pessoal. Entretanto, reduzir toda a discussão à figura do político corrupto pode ser conveniente demais. Afinal, um sistema só permanece funcionando quando encontra condições para continuar funcionando.
Imagem retirada do Google Imagem, por Joaquim Filho, em 04.09.2026, às 11h35E é aqui que o eleitor precisa entrar nessa reflexão. O eleitor é culpado pela corrupção? Não. Mas é responsável pelas suas escolhas. Há uma diferença enorme entre responsabilidade e culpa. Quem vende o voto não pratica o mesmo crime de quem rouba milhões dos cofres públicos, mas ajuda a alimentar uma lógica perversa: a de que o voto pode ser negociado. E quando transformamos cidadania em troca de favores, não deveríamos nos surpreender quando alguns políticos passam a enxergar o poder também como mercadoria.
Mas seria igualmente irresponsável colocar toda essa conta nas costas do eleitor. Existem milhões de pessoas que vivem em condições de vulnerabilidade e são abordadas pela política justamente quando precisam de algo que deveria ser garantido pelo Estado. Nesse contexto, falar simplesmente em “consciência do eleitor” pode esconder uma questão muito maior: por quê ainda existem cidadãos que precisam trocar sua liberdade de escolha por uma cesta básica, um emprego, uma consulta médica ou qualquer outro benefício essencial? A pobreza também pode ser instrumentalizada politicamente.
Talvez um dos maiores problemas esteja justamente naquilo que deixamos de enxergar como corrupção. Corrupção não é apenas o grande esquema descoberto nos jornais. Ela também aparece quando o público é tratado como privado, quando um favor pessoal é confundido com política pública, quando uma obra é apresentada como presente de um governante e quando o cidadão agradece por receber aquilo que, na verdade, já deveria ter sido garantido pelo poder público. Quando o direito vira favor, o cidadão vira dependente e o político vira dono de algo que nunca lhe pertenceu.
![]() |
| Imagem retirada do Google Imagem, por Joaquim Filho, em 04.09.2026, às 11h34 |
Também precisamos falar da descrença. Quando o cidadão afirma que “todos os políticos são iguais”, pode estar dizendo uma verdade construída por suas experiências, mas também pode estar contribuindo para uma perigosa generalização. Porque, se todos são iguais, por quê pesquisar propostas? Por quê fiscalizar? Por quê participar? Por quê cobrar? A descrença absoluta não pune apenas os maus políticos; ela também pode afastar os bons e deixar o espaço público justamente para aqueles que têm interesse em ocupá-lo sem fiscalização.
No final, talvez a pergunta não seja simplesmente quem é o culpado pela corrupção: o político ou o eleitor? A pergunta mais importante é: que sociedade queremos construir a partir de agora? O político precisa compreender que mandato não é propriedade, é representação. O eleitor precisa compreender que voto não é favor, é poder. E todos nós precisamos compreender que democracia não termina no dia da eleição. Talvez a verdadeira mudança comece quando deixarmos de perguntar apenas “o que o político está fazendo?” e passarmos a perguntar também: “o que estamos fazendo, enquanto sociedade, para que a política seja diferente?”
Magali Lima
Pedagoga e Especialista em Educação


.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário