sexta-feira, 11 de setembro de 2026

COLUNA EM PARCERIA: PAUL GETTY E SANDRO ALEX

 PEREIRÃO, O “BICHO”: Eterno no Campo da Memória! 

“Quem não vive para servir, não serve para viver.”

— Cora Coralina


Há pessoas que passam pela vida. Outras deixam marcas tão profundas que continuam presentes mesmo depois da partida. ANTÔNIO PEREIRA era assim: nasceu para servir, ensinar, fazer amigos e semear lembranças por onde passou.


ANTÔNIO PEREIRA nasceu em 2 de outubro de 1935, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), e faleceu em 4 de setembro de 2016, em PEDREIRAS, no Maranhão. Filho único de dona Helena da Conceição, mãe solteira e mulher de fibra, desde menino alimentava um sonho: ser jogador de futebol. E não era apenas sonho — levava jeito para a bola.


Aos dezoito anos, alistou-se no Exército Brasileiro, onde permaneceu por cinco anos e alcançou a patente de cabo. Nesse período, conciliava a vida militar com a paixão pelo futebol, atuando em clubes cariocas como Bangu, Madureira e Olaria, entre outros.


Seu talento não demorou a chamar atenção. Observado por um dirigente do Clube de Regatas Vasco da Gama, foi contratado e logo aquele jovem negro, forte e determinado, conquistaria seu espaço como lateral-esquerdo, dividindo o campo com grandes nomes do futebol brasileiro, como Barbosa, Sabará, Bellini e Brito.


Ainda na década de 1960, depois de alguns anos no Vasco, PEREIRA seguiu para São Paulo, onde defendeu a Portuguesa de Desportos. Mais tarde, retornou ao Rio de Janeiro para vestir novamente as camisas do Madureira e do Bangu.


Na década de 1970, o destino colocou o Maranhão em seu caminho. Veio para São Luís jogar pelo Moto Club e, depois de algumas partidas, pendurou as chuteiras. Mas quem nasce para o futebol nunca abandona verdadeiramente os gramados. PEREIRA passou para o outro lado das quatro linhas e tornou-se treinador da própria equipe por cerca de um ano.


Em 1972, recebeu do Dr. Antônio Joaquim o convite para treinar o Santos Futebol Clube, da cidade de Codó. Naquele mesmo ano, chegou a PEDREIRAS, a convite do então prefeito Dr. Carlos Martins, para comandar a Seleção Pedreirense de Futebol. E chegou fazendo história: sagrou-se campeão intermunicipal naquele ano.


Pedreiras, que inicialmente seria apenas mais uma parada em sua trajetória, tornou-se seu porto definitivo.


Em 1988, retornou a Codó para treinar o América Futebol Clube, do Dr. Antônio Joaquim, onde permaneceu até 1989. Levou consigo alguns jogadores de Pedreiras, entre eles Danda e Cozinho, abrindo caminhos para jovens talentos da nossa terra. Mas PEREIRA foi muito além do futebol.


Em PEDREIRAS, tornou-se professor de Educação Física e proprietário de uma academia de musculação e estética, que funcionava no prédio do Grêmio Lítero-Recreativo Pedreirense. Em 1979, a convite do então diretor Helvécio de Castro Nascimento, passou a trabalhar no Colégio Corrêa de Araújo. Foi ali que ganhou o apelido que atravessaria gerações e se confundiria para sempre com sua própria identidade: PEREIRÃO, O “BICHO”!


E havia uma razão afetiva para que aquela palavra ficasse tão ligada à sua figura.


Seu PEREIRA chamava, carinhosamente, cada um de seus alunos-atletas de “BICHO”. Mais que um apelido, era sua maneira singular de demonstrar afeto, proximidade e orgulho por aqueles que ajudava a formar — no esporte e na vida. Em cada “BICHO!” havia a voz firme do mestre, mas também o carinho de quem ensinava com o coração.


Era quase uma senha entre professor e aluno. Um chamado que atravessava a quadra, o campo e os corredores da escola. Para muitos de nós, ouvir aquele “BICHO!”, pronunciado em sua voz inconfundível, significava muito mais do que ser chamado para um treino ou receber uma orientação. Significava pertencer. Significava saber que, por trás daquela voz forte, havia alguém que acreditava em nós.


De voz trovejante, sorriso largo e presença impossível de ignorar, PEREIRÃO tinha o raro talento de conquistar amizades. Por trás da figura imponente havia um homem generoso, de caráter ilibado, coração aberto e uma disposição permanente para ensinar.


Viveu em Pedreiras por quase quarenta anos. É pai de Iara, Regio, Ticyana, Vanessa e Tamires. Mais do que isso, tornou-se parte da memória afetiva de uma cidade inteira.


Foi nosso primeiro professor de Educação Física e meu primeiro treinador de futebol, assim como foi de grande parte da nossa geração de amigos. Com ele aprendemos a correr, chutar, competir, respeitar o adversário, cair e levantar. Talvez sem perceber, PEREIRÃO não estivesse apenas formando jogadores — estava ajudando a formar homens.


Sua trajetória chegou também às páginas da literatura. PEREIRA é citado no livro Estrela Solitária, de Ruy Castro, obra sobre a vida de Garrincha, em uma passagem na qual aparece como o jogador que, naquele dia, conseguiu barrar o genial Mané.


Ironias bonitas que somente o futebol sabe escrever: PEREIRA era botafoguense apaixonado e tinha entre seus grandes ídolos justamente Garrincha, além de Brito e Pelé.


Sua passagem pelo Vasco também ganhou as páginas de O Globo, que o homenageou com uma manchete que atravessaria o tempo: “PEREIRA, o crioulo internacional”. Uma expressão própria de outra época, hoje guardada como registro histórico de sua trajetória no futebol.


Neste mês de setembro completam-se dez anos desde que o “BICHO” partiu — assim, de repente, fora do combinado. Mas certas pessoas não vão embora por inteiro.


PEREIRA continua vivo no eco de sua voz pelos antigos corredores do Corrêa de Araújo, nas histórias contadas à beira dos campos, nas fotografias amareladas, nas lembranças dos alunos, dos atletas, dos amigos e de todos aqueles que tiveram o privilégio de cruzar seu caminho.


E talvez continue vivo, sobretudo, naquela palavra que tantas vezes ouvimos dele. “BICHO!”


Hoje, quando a memória devolve aquele chamado, já não escutamos apenas a voz do professor ou do treinador. Escutamos o afeto escondido dentro da palavra. Escutamos nossa juventude. Escutamos os campos, as quadras, os amigos e um tempo que não volta — mas que também nunca desaparece completamente.


Gosto de imaginar que, em algum campo sem alambrados, onde o tempo não marca impedimento e nenhuma partida chega ao fim, o “BICHO” tenha encontrado uma nova seleção.


Talvez esteja lá, com Barbosa no gol, Bellini comandando a defesa, Pelé distribuindo sua majestade e Garrincha entortando os marcadores.


E, quando MANÉ parte pela ponta com aquela bola grudada nos pés, alguém de voz trovejante deve gritar: — Aqui não, Garrincha! Hoje quem manda aqui é o PEREIRA! E o céu inteiro deve cair na gargalhada.


Porque homens como PEREIRA podem até pendurar as chuteiras na Terra, mas jamais deixam de jogar no campo da nossa memória.


SANDRO ALEX LIMA

Professor, cronista, compositor e poeta

Membro da Associação dos Poetas e Escritores de Pedreiras – MA.


PAUL GETTY S NASCIMENTO 

Poeta, compositor, cronista e membro da APL – Academia Pedreirense de Letras e da ALMA – Academia Literária Maranhense

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